Pontes Vivas — das responsabilidades de um psicólogo


Fonte da imagem — https://www.youtube.com/watch?v=mmmlgKr0TzM


As pessoas parecem sempre estar a espera de grandes momentos. A hora daquela felicidade, “quando eu conquistar isso, ou aquilo”… “quando o dia chegar serei completo”. Somos sedentos pelos grandes momentos da vida. Carregando esse desejo com uma certa ilusão. Achamos, inocentemente, são esses grandes momentos que nos transformam. Mas não.

Os grandes momentos como este são, sim, importantes rituais de passagem, mas servem tão somente para nos autorizar a praticar algo que construímos todos os dias, tecendo o presente, vivendo o dia a dia. Conquistamos nossas responsabilidades.

Lembro aqui da história grega de Prometeu, um titã astuto que ousou roubar o fogo sagrado de Héstia. Esse fogo era alimentado diretamente pela fonte de todas as luzes, o sol. Prometeu deu esse fogo sagrado, esse conhecimento para a humanidade. E foi punido por Zeus em um castigo eterno. Eu penso que, na verdade, depois de obter esse conhecimento, ele ficou com o dever de uma tarefa eterna: portar a Consciência.

O mitólogo Joseph Campbell encontrou ainda uma história muito similar, e ainda mais bonita, em seus estudos (história citada na entrevista O Poder do Mito — com Bill Moyers). Nesta versão, pássaros teriam roubado o fogo dos céus e descido à terra, passando de um para outro até chegar ao homem. O fogo, nessa descida, queimou cada pássaro de forma diferente e assim foi criado o colorido de suas penas.

Assim somos nós. Carregar essa luz nos queimou de diferentes maneiras. E agora vamos exercer o conhecimento que obtivemos pautado pela nossa individualidade e nossa diversidade. Delimitados pelos parâmetros da ética e da responsabilidade, mas com nosso toque pessoal.

Dessa maneira, temos, como psicólogos, uma enorme responsabilidade em cuidar do essencial da vida. Aquele “invisível” de que fala Sant-Antoine Exupéry (em sua obra O Pequeno Príncipe) quando diz “O essencial é invisível aos olhos”.

Seja qual for nossa abordagem ou nossa função, seja na clínica, na organização, numa instituição, onde quer que estejamos atuando, nosso papel é desvendar o essencial Humano naquilo que ainda é invisível para as pessoas. Mas que influencia, paralisa ou adoece se não é olhado ou reconhecido.
É o reconhecimento desse invisível, que podemos chamar também de alma, de contingências de comportamento, neuroses… é que possibilita a transformação.

Mas, nossa responsabilidade não para em desvendar o invisível para o outro. E a transformação maior talvez seja a nossa própria e que será despertada pela experiência e autoconhecimento.  Devemos estar atentos e considerar o invisível em nós.

Temos, ainda, uma terceira responsabilidade. A responsabilidade com o ser humano. Ilustro aqui mais essa nossa tarefa com outra história. Há uma localidade chamada Cherrapunji, na Índia, onde seus habitantes criaram um tipo de arquitetura diferente. Em um passado distante, o povo que lá vive sofria com inúmeras inundações e águas violentas que separavam as aldeias em certas épocas do ano. Eles aprenderam então a fazer pontes muito resistentes, construídas com raízes. Raízes vivas.

Pacientemente, em um trabalho passado de geração para geração, eles direcionam as raízes de árvores que parecem grandes figueiras, para que elas cresçam na forma de pontes.

Apesar de todos usufruírem das pontes construídas no passado, eles nunca aproveitarão uma ponte que estão construindo hoje, que servirá o povo por, nada menos, que quinhentos anos.
O trabalho deles é um legado.

Convido-os a construírem essa ponte. E como faremos isso? Trabalhando, no dia a dia, no presente. Em cada instante que nos é dado, ajudando na transformação de cada pessoa, empresa ou instituição que nos será confiada.
Sejamos pontes vivas.

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