Ressurreição, renascimento e reencarnação

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Ilustração: O Livro Vermelho. Liber Novus — C. G. Jung

APáscoa cristã deste ano acabou de nos deixar. A maioria das pessoas com quem eu encontro têm mais fé na simbologia desta data do que na crença pura de que ela guarda fatos físicos. E se o símbolo estiver vivo, de fato, é o que eu acredito que tenha uma verdadeira função na nossa vida. Simplificando, o que vale para essas pessoas é o modelo de Ressurreição de Cristo para a nossa vida pessoal. Onde eu, em minha pobre existência devo ressurgir? O que deve ser morto e crucificado? O que restará?
Essa reflexão não é nova e eu arriscaria que até é cai na malha do senso comum. Bem, na tentativa de resgatá-la e, porque não, enriquecê-la, proponho pensarmos nas três palavras do título deste texto. Elas são parecidas, usadas em contextos religiosos, mas que podem trazer-nos um auxílio psicológico e pessoal.
Os três termos estão ligados à morte, mas também à transformação. Quando Cristo Ressuscita, ele “vence a morte” e traz de volta à vida tudo o que ele era, para, digamos, continuarmos o nosso caminho de construção do seu Reino na terra. Quando Buda ou outras religiões orientais nos falam de Renascimento, o caso se torna um pouco diferente. Podemos dizer, na verdade que a cada Renascimento traz-se menos da sua vida anterior. É como um novo princípio, um passo de purificação em que o seu eu pessoal terminou, mas o fluxo cármico segue seu caminho. A Reencarnação é um termo usado pelos espíritas que nos alude à vivencia da alma em uma nova carne, a diferença do Renascimento é que aqui cabe um fato pessoal, há uma transmigração da personalidade agora em na vivencia e outro contexto.
Meu objetivo aqui não é religioso, por isso, de antemão, convido às pessoas que entendem mais do que eu da descrição desses termos a me corrigirem nos comentários, se sentirem-se à vontade.
Quero colocar aqui o fator psicológico, ou seja, como esses termos surgem, de forma simbólica, na nossa experiência de vida. Há questões na nossa vida que precisam morrer crucificadas e ressurgir depois de “três dias” (luto) reafirmando a verdade, dando força para que possamos seguir o mesmo caminho já apreendido. Me veem a mente o enfrentamento de uma doença muito grave, por exemplo, que é superada ou entendida internamente. Há um estágio deste entendimento parecido com uma Ressurreição — sua vida continuou transfigurada a partir daquele mal. O que era para morrer morre, o que é para ficar, fica mais forte.
De outro lado, há situações em nossa vida que devem ser resinificadas por completo, como renascer. Penso aqui, por exemplo, em um padrão familiar nocivo, que ainda pode se encontrar em curso na vida de uma pessoa. Não se precisa ressurgir e sim renascer, trazer um fluxo de identidade novo e livre através do seu entendimento e de escolhas de caminhos distintos dos caminhos tomados no passado.
Seguindo a linha de reflexão, uma reencarnação interna seria mudar a roupagem física de uma realidade de vida. Mudar os ares, trocar de casa, trocar de trabalho, trazer a nova realidade de fora para dentro. Isso pode se fazer quando não há energia suficiente interna para a transformação. Há a possibilidade de transmigração da vida anterior para um novo corpo e assim, paulatinamente, ela se transforma.
É preciso lembrar que essas três palavras, neste contexto de transformação psicológica, precedem uma atitude deixar o velho para haver “o parto de uma nova claridade”, como diz Rainer Maria Rilke, em um de seus livros mais famosos. Claridades que estão sendo gestadas, neste momento, aí dentro de você.
Recomendação de leitura para aprofundar no tema: Cartas a um jovem poeta, Rainer Maria Rilke. Ed. Globo 31a. Edição. Carta do dia 23 de abril de 1903, quando ele fala sobre tornar-se um artista.

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