Perceber-se

...
Ouro Bruto*
“Conhece-te a ti mesmo”. O aforisma grego no topo inscrito no templo de Apolo em Delfos é amplamente conhecido até hoje. E acredito que poucas pessoas venham a discordar da sua importância. Conhecer-nos a nós mesmos é, de fato, uma de nossas mais desafiadoras tarefas, que levamos toda uma vida para lidar.

Mas, apesar de ser amplamente conhecida, praticar o autoconhecimento é algo extremamente difícil. Acaba sendo engolido facilmente com o passar dos dias, entra no ponto-cego, muito porque é desconfortável e nos faz desmanchar ilusões a muito tempo cultivadas e necessárias em algum momento da nossa existência. A vida nos chama para fora, o que também é muito importante para nos estabelecermos.

Estou aprendendo que antes do momento de conhecer-nos a nós mesmos existe um estágio de percepção de si mesmo. Uma fase anterior importante, quando nos colocamos para perceber como está a nossa vida hoje. Perceber sentimentos e pensamentos chegando até nós e olhar o que eles nos provocam. O perceber-se nos coloca onde estamos. É como se estivéssemos perdidos e diante de nós houvesse um mapa. Percebe-se é procurar aquela setinha vermelha que diz, “você está aqui”.

E, no ato de perceber-se, não importa muito se não conseguimos (ainda) tomar atitudes diferentes ou mudar uma situação. É um primeiro passo, uma observação e não uma ação. 

Podemos, neste estagio do percebe-se, fazer algumas perguntas sinceras a nós mesmos, livres de julgamento, como por exemplo, qual é o meu jeito? O que ele desencadeia nas relações que tenho? Como estou me sentindo, feliz, triste, irritado, depressivo, ansioso, não sinto nada? Qual a diferença do que sou para o que me tornei? Onde posso mudar e onde não posso mudar? Há algo que precisa ser aceito? Há algo que não consigo? Há alguma prioridade de minha vida (trabalho, família, relações, sentimentos) que me privam de quem eu sou?

Muitas vezes, algumas situações, sintomas, doenças, relações de alta toxidade, encrencas, entre outras inconveniências colocam-se diante de nossa integralidade, felicidade, crescimento e expansão. Elas são também uma maneira de nos percebermos. Sempre questiono, diante de um desequilíbrio, o que ele vem equilibrar. Olhado dessa maneira, as situações ruins são a matéria-prima que chegam até nós dessa forma sombria por nossa atenção e consciência estarem engolidas no dia após dia.

Assim, existe na dor o germe para transformação. A matéria-prima, quando chega, é compacta, escura, precisa ser trabalhada em um local seguro e protegido para que o ouro possa surgir. Perceber-se é notar a nossa matéria-prima hoje. E este é o primeiro estágio para transformá-la.


* imagem  disponível em http://www.megatimes.com.br/2015/05/pepitas-de-ouro-ouro-bruto.html

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