Arte: além do artista

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*Reflexões para a abertura da exposição de esculturas do artista plástico Luiz Valdo (meu pai) Ligações Externas, no Museu Municipal de Socorro-SP

“Tudo o que ligares na terra, será ligado no céu” (Mt 16:19).
Eu começo com essa frase bíblica, mas não vou falar de religião. A interpretação que eu faço dessa frase que Jesus teria dito para Pedro seria a seguinte: podemos considerar que o céu, no caso, é o nosso mundo interno, nossos pensamentos, nossos sonhos, tudo aquilo que a gente é e não sabe, não lembra, não considera naquele momento, o que nos é inconsciente, nossas emoções, nossas memórias. A terra, seria nossa vida aqui fora, quando a gente está acordado, trabalhando, vivendo em família. Assim, essa frase nos diz, então que, tudo o que a gente liga aqui, externamente, algo se liga também internamente. A via contrária também funciona, ou seja, se desligar aqui fora, dentro também desliga.

O título dessa exposição de esculturas é Ligações Externas. Seguindo essa linha de pensamento, em toda ligação que eu faço externamente, algo internamente também se liga em mim. A arte, a criatividade materializada em forma de escultura, quadro, poesia, etc. é uma ligação interna, possível de ser compartilhada.

A manifestação artística é a linguagem que comunica algo de dentro. E trata-se de algo de dentro não somente dos conteúdos pessoais do artista. Logicamente, a matéria que passa pelas mãos dele fica com o seu cheiro, tem aspectos dele. Mas o que importa realmente não é isso. É comum o artista sentir que é apenas um canal para manifestação. Dizem que Michelangelo falava algo parecido com isso: “a escultura já está na pedra, cabe a mim deixa-la fluir tirando os excessos”.
Mas de onde vem essa fala da obra de arte, se o artista é um mero servente, um tirador de excessos?

Todos estamos ligados neste céu interno. Todas as experiências da humanidade, todo o aprendizado, os comportamentos, as soluções para viver, sobreviver diante da existência está dentro da gente. Da mesma maneira que, com a genética, carregamos as características de nossos ancestrais, psiquicamente temos estruturas herdadas que nos ajudam a viver hoje. Essas estruturas surgem, de maneira autônoma, sem a gente querer, e, uma das formas de materialização é a arte. O artista, portanto, é o tradutor dessa “mensagem do espírito” que nos ajuda a viver agora. Não é nós que temos o céu, mas estamos debaixo dele, na terra e daqui só podemos olhar as estrelas, ficar abismados com as estrelas e nos guiar a partir delas. A obra de arte é a estrela deste céu. Ela aponta e concretiza um caminho pessoal.

Hoje, temos uma oportunidade de fazer algumas ligações internas, que nos podem ser muito úteis para o nosso entendimento próprio, nosso autoconhecimento, utilizando-se da arte que o artista criou e tornou disponível.

Esse pequeno roteiro pode nos ajudar a acessar as ligações internas que aquela obra de arte pode despertar. Ao ficar em frente dela, crie, conscientemente uma ligação. Por ser uma escultura, isso terá que ser feito através do olhar, primeiramente. Alguém pode ser mais criativo e sentir o cheiro dela, alguém pode querer tocar... enfim, estabeleça uma conexão arte-você. A partir desse momento, você pode começar a tirar os excessos do que seja a arte para você, ouça o que ela tem a dizer e se concentre na primeira coisa que vier na sua cabeça. Uma emoção, algo que você lembra de imediato ou talvez a imagem da escultura te remeta a uma outra imagem. Brinque com esse resultado, considere onde você sente coisas parecidas. Brinque mesmo, não leve muito a sério agora. Deixe a escultura acontecer dentro de você. Olhe o todo, olhe os detalhes e, por fim, deixe um tempo para a contemplação, simplesmente olhar.

Espero que todos aproveitem a noite e que hoje seja uma oportunidade para a transformação, descontração, para a gente sair do olhar da vida comum e se conectar com algo interno, no nosso céu interior.

Sobre a exposição Ligações Externas de Luiz Valdo 

Obra de referência teórica:
JUNG, Carl Gustav. O Espírito na arte e na ciência - Obras Completas vol. 15. Petrópolis - RJ: Vozes, 1971/2012.


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