Trabalho - da unilateralidade material para o diálogo com a nossa natureza

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*Aula especial para os alunos do 10º semestre de Psicologia da UniFaj. 




Seria muito difícil, ou quase impossível, compreender o ser humano hoje sem passar por suas relações de trabalho. Podemos dizer que, do ponto de vista ocidental, as relações de trabalho passaram a ocupar posição de destaque na vida das pessoas, dividindo energia psíquica com as relações familiares e competindo espaços com o sagrado, o convívio social e outras relações.

A vida se passa também no trabalho. Aliás, boa parte dela. Gastamos mais tempo com nossos colegas de trabalho do que com pessoas da nossa família. Além disso, as novas tecnologias que criam as relações digitais nos colocam em contato com o ambiente de trabalho em instantes. O aparelho que utilizamos para o entretenimento e diversão também é nossos instrumentos de trabalho. Tudo, neste tom da pós-modernidade, passa a ser misturado. Diante da importância que o trabalho tem na sociedade atual, é de se espantar a sua má fama. Quem nunca sonhou com um trabalho mais satisfatório, na realização humana por meio da profissão? Para ganhar o direito de serem alguém na vida. E ser alguém é, dentre outras coisas, ter um bom emprego.

O modo de vida da sociedade atual caminha para uma integração desses dois momentos da vida. Trabalho e ócio são cada vez menos delimitados por tecnologias como comunicadores instantâneos. E, se não ressignificamos nossa noção de trabalho, corremos o risco de ter nosso tempo de vida engolidos por uma escravidão consentida.

Antes de entrar efetivamente no tema de hoje: “trabalho” para saber como a mesma atividade pode trazer saúde e doença, quero entrar rapidamente nas definições de saúde e doença.
Diz a Organização Mundial da Saúde OMS que Saúde não é simplesmente a ausência de doenças físicas, mas um estado de “completo equilíbrio entre bem-estar físico, psíquico e social”. Sobre o fato da doença física não ser o fator determinante para uma pessoa ser considerada não-saudável já devemos ter claro, uma vez que escolhemos a profissão que, dentre outras atividades, se ocupa dos desequilíbrios não-físicos, ou psíquicos. Muitos dos quais a origem é incerta. Mas, convenhamos, não há como encontrar alguém em completo equilíbrio de bem-estar. Essa interpretação é de natureza subjetiva.

Dessa maneira, proponho pensar em um conceito de saúde da Psicologia Analítica, em que o ser humano, Corpo + Psique, pode ser visto como um sistema que busca o equilíbrio. A doença, neste caso, tanto a física como as ditas “doenças mentais” ou, no popular “isso é da cabeça”, são formas do nosso ser alcançar algum tipo de equilíbrio para um estado de vida. O sintoma chama a consciência para aquilo que ela perdeu, não está dando atenção, está sendo negligente ou ainda não conhece e precisa seguir.

Aceitamos essa maneira de pensar mais facilmente quando pensamos no corpo biológico. Quando não bebemos água por muito tempo, sentimos fome ou sede para que nosso corpo busque satisfazer essas necessidades. Isso é inconsciente, ou seja, o corpo é que manda, é autônomo. Da mesma maneira isso ocorre com nossa Psique, o que nos falta de um lado, ela busca completar de outro. Se devotamos boa parte do nosso tempo de vida a um trabalho que não atende a este diálogo, ou seja, não satisfaça o que somos de coração, emocionalmente ou financeiramente, o corpo busca o equilíbrio de uma outra maneira, de forma tão autônoma como a fome e a sede.    

O imaginário que ronda o trabalho não é dos mais agradáveis. A vida parece cindida entre dias de semana e finais de semana e feriadões. Ninguém se espantaria com a pergunta, “O que você faz no seu tempo livre?” Considerando que, se no tempo em que você não está trabalhando você estaria então preso. Barcellos (2012) nos coloca essa questão:
“’Tempo de trabalho’ e ‘tempo livre’, essa linguagem já denuncia muita coisa. Nessa lógica, estar livre é estar momentaneamente ao menos, sem trabalho (...) trabalhar, então é estar necessariamente preso a uma complexa cadeia de significações que inclui autoestima, produtividade, encaixe social, noções de dignidade, sentido de existência e, principalmente, por estar envolvido hoje na construção de uma felicidade privada por sua vez fortemente relacionada à fluidez do acesso aos bens de consumo, que assim se tornam índices de bem-estar”  
A má fama do trabalho não é de hoje. Desde a antiguidade, o trabalho físico braçal executado por escravos ou pobres e os que não trabalhavam em uma atividade física, eram o topo da sociedade, considerados cidadãos. Na história, o trabalho já serviu para as relações de dominação e subjugação entre os homens e a natureza. A escravidão é o limite desta relação. Na Grécia Antiga o trabalho era desvalorizado, pois somente era feito por escravos. A tradição judaico-cristã sempre ligou o trabalho a uma imagem negativa (Barcellos, 2012).

Temos ainda um agravante na fundação de nosso País. Nossa história foi iniciada com uma complicada relação de trabalho. Infelizmente, os europeus que invadiram essas terras não tiveram consideração com os nativos que aqui já desenvolviam grandes sociedades. Diferentes da civilização europeia, talvez com outras respostas diante da vida. Estima-se que havia aqui, em 1500, mais de mil sistemas linguísticos (GAMBINI, 2012). Cada sistema linguístico com seu modo de viver, sua espiritualidade e sua maneira de lidar com o trabalho que, na maioria das vezes era menos hierárquico e mais integrado ao modo de vida e à natureza. Por isso que eles não suportaram a escravidão e foram dizimados.

Na nossa própria língua, a palavra trabalho carrega essa fama. É possível que a palavra trabalho vem do nome em latim de uma ferramenta de tortura Tripalium. A palavra lavoro, na língua italiana talvez seja mais tênue – um esforço físico – também é a raiz para a palavra Lavoura. Aí vemos já um princípio de vida, germinação, o trabalho para criar.  O que vou falar agora é fruto do senso comum e minha observação, mas é interessante notar que a relação do italiano com o trabalho e o ócio se diferem bastante em nossa sociedade. A linguagem acompanha a significação.
Logicamente, não é uma mudança linguística que precisamos despertar, enquanto psicólogos, para ressiginificar as noções de trabalho na sociedade. O que nos cabe então é olhar para como, entendendo as pessoas, sua vida, seus desafios, problemas, podem transformar a sua relação de trabalho em uma atividade saudável.

O trabalho tem um lado luminoso. Trabalho não é o mesmo que emprego, mas sim uma ação humana no mundo. Na verdade, alguns autores o consideram até como um instinto humano e animal. Barcelos (2012), diz que em qualquer agrupamento de animais é possível identificar atividades que podem ser entendidas como trabalho. James Hillman (1989) afirma que basta observar a atitude das pessoas após uma grande catástrofe natural, por exemplo. Passado o abalo emocional inicial, as pessoas começam a trabalhar para colocar a rotina em ordem. O trabalho, visto dessa maneira, é o impulso de ação que faz a consciência, que nos faz sair da posição de integrados à natureza e inconscientes de nossa individualidade e criar a civilização. Devemos à nossa capacidade de trabalhar a construção da civilização e a nossa tomada e conservação da consciência.

Vamos pegar essa trilha proposta pelo Hillman e pensar no trabalho como um instinto. O que é o instinto? Vou usar aqui uma definição do Jung (1971/2011) que diz que “os instintos são forças motivadoras do processo psíquico (...) órgãos psíquicos e atividade gandular produtora de hormônios que teria uma causalidade psíquica”. O instinto, para ele é, extrapsíquico, ou seja, tem suas raízes biofisiológicas e, neste campo, atuam como compulsão. São direcionados para realização de um equilíbrio que resulta em um estado de prazer.

Para ilustrar, trazemos mais uma vez o exemplo da fome (instinto de autopreservação). Os bebezinhos mal nascem e já sabem satisfazer a fome na primeira mamada, movimentando a boca como se alguém tivesse ensinado. Mas acontece que os instintos, entrando em contato com o psíquico, podem alterar a sua forma. Ou seja, nós humanos nossos capazes de, ao menos que por um momento, sublimar, reprimir, substituir, trocar, adiar o instinto, e por vezes suportar a sua não realização, mas isso tem necessariamente um custo psíquico, que tenderá para o equilíbrio da equação. Para continuarmos no exemplo da fome, é dessa maneira que cada pessoa lida com ela de uma maneira diferente. Apesar de todos sentirem fome, existem diferentes atuações dela, existem transtornos alimentares, compulsão de alimentação etc. O instinto é então “trazido para dentro” ou psiquificado, como diz o Jung e dessa maneira lidamos com ele.

Toda vez que “lutamos” contra essa natureza, ou seja, quando a consciência luta para diferenciar-se para civilizar-se, a energia da natureza é direcionada para o inconsciente e vivemos um período de unilateralidade. Ela é necessária para deixarmos nos movimentarmos naquela direção submersa no inconsciente e entrar no campo da consciência, mas há uma necessidade posterior de integrar aspectos que foram deixados para trás nesta viagem unilateral.

Dentro dos cinco principais fatores instintivos determinados por Jung, existem três que nos interessam bastante para o tema que são o “impulso para agir”, “a reflexão” e a “criatividade”, estes dois últimos, segundo ele, o que nos diferencia dos animais. Os outros são a fome (autoconservação), a sexualidade (conservação da espécie). Dentre os fatores instintivos do grupo do impulso a ação, estão o impulso a viajar, o amor à mudança, o dessossego e o instinto lúdico. Creio que isso que o Hillman chama de instinto do trabalho.

Assim, instintivamente somos impulsionados a trabalhar (mudar, refletir e criar). Ou seja, para um trabalhar integrado com o prazer que é de natureza instintiva. Não atuar conscientemente este aspecto é dar espaço para um funcionamento compulsivo da realização de um só grupo instintivo, que é o da autoconservação. Hoje, é muito comum no mundo do trabalho pessoas vagando entre posições, ou amargando em um cargo ruim, esperando uma boa oportunidade sempre e que nunca chega, mudam sempre, mas não constroem uma carreira. Por isso, além do impulso para a mudança, temos que ativar os estados de reflexão, reflexio = curvar-se) e criatividade. E isso só se consegue colocando a imaginação nesta equação.

O trabalho, se for encarado como uma venda do seu tempo de vida em troca de dinheiro, sempre responderá para uma atuação que não leva em consideração nossa natureza instintiva de mudar, refletir e criar. Qualquer trabalho, pode ser enriquecido com essa visão. Hillman aponta para o perigo da especialização, exagerando que ela é o motivo de unilateralidade acredito que, se estamos em contato com a imaginação e despertamos a criatividade, ou não simplesmente trocamos nosso tempo de vida por dinheiro, podemos ser livres trabalhando até no ambiente mais especializado. Por exemplo, vê se a alegria quando pesquisadores fazem descobertas incríveis sobre a asa da borboleta, ou qualquer assunto que para a maioria esmagadora das pessoas seria irrelevante.

Retomando o conceito estabelecido do binômio saúde/doença como uma busca pelo equilíbrio constante, o trabalho pode adoecer quando ele se afasta de nossa natureza, quando os instintos devidos, já citados, não são devidamente incluídos no nosso modo de ver, e passamos ter uma relação que responde, unilateralmente, à materialidade da ação. Logicamente, precisamos do material. Temos que construir viver, temos que ganhar dinheiro, e no nosso caso ganhar, é nosso trabalho que nos sustenta na nossa sociedade, de maneira alguma isso nos é proibido, feio ou desonesto. Essa visão, já estabelecida não precisa ir embora, mas pode ser integrada com os outros valores.

Viver o caráter material do trabalho não significa entregar sua vida para uma carreira onde a criatividade e a reflexão não são incluídas. Isso é a escravidão, não para um senhor, mas para um modelo que impede nosso crescimento e coloca a esperança da vida em bens de consumo. É escravidão no sentido de nos manter presos e não podemos realizar um décimo de nossas potencialidades para ter um carro do ano, uma casa de novela, um segurança de autoproteção de contornos neuróticos.  

O diálogo com sua natureza sempre deve existir e os psicólogos, em qualquer uma de suas atuações, têm o dever de levantar a possibilidade deste diálogo, seja na clínica, na empresa, na sociedade. Nossa atuação, em um ambiente organizacional, também passa por contribuir com a ressignificação do conceito do trabalho para os que estão em contato conosco, levando o ponto de vista humano sempre. Todas as teorias de psicologia caminham para um objetivo comum que é a compreensão, o equilíbrio e a evolução integral do ser humano e da sociedade.          
Termino com duas citações relevantes para o tema, para ampliar a reflexão, os grifos são meus:
“Precisamos falar do instinto do trabalho [...] falar do trabalho como um prazer, como uma gratificação instintiva [...] as próprias mãos querem fazer as coisas e a mente adora ser aproveitada. O trabalho é irredutível. [...] O trabalho é um fim em si mesmo e traz sua própria alegria”.
HILLMAN, 1989
“Percebemos assim que a maturidade psicológica revela-se em parte e nossa relação com o tempo – algumas pessoas atropelam seu próprio ritmo e outras se deixam atropelar. Num momento materialista como vivemos onde “tempo é dinheiro”, a disponibilidade, a receptividade, são atributos fora de contexto [...] Como respeitar os ritmos do Self diante da pressão do desenvolvimento tecnológico e econômico parece construir o grande desafio da nossa era. Lembramos novamente da figura do alquimista, escultor e forjador do homem e do mundo: sua atitude reverente lhe dava acesso ao ritmo misterioso da vida possibilitando-lhe criar e transformar. A devoção, o amor ao trabalho e o desejo de seguir parecem construir seu exemplo e sua contribuição”
CARVALHO, 2002


Bibliografia

BARCELLOS, Gustavo. Psique e Imagem – Estudos de Psicologia Arquetípica. Petrópolis – RJ: Vozes, 2012
CARVALHO, Sonia in GIGLIO, Zula (Org.). Anatomia de uma época – Olhares junguiano através do binômio Eficiência / Transformação Campinas – SP: IPAC, 2002
GAMBINI, Roberto. A voz e o tempo – Reflexões para jovens terapeutas. Cotia – SP: Ateliê Editorial, 2012
HILLMAN, James. Entre Vistas – Conversas com Laura Pozzo sobre psicoterapia, biografia, amor, sonhos, trabalho, imaginação e o estado da cultura. São Paulo: Summus, 1989
JUNG, A natureza da Psique – Obras Completas Vol. 8/2. Petrópolis – RJ: Vozes 1971/2011

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