Um olhar para a ansiedade


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Por intermédio de minha amiga jornalista Fabiana Schoqui, participei de uma reportagem sobre ansiedade da Revista Nova Família, escrita pela repórter Thaise Xavier.

Atualmente, muitas das pessoas que procuram atendimento psicológico tomam essa decisão atualmente por conta de sintomas de ansiedade. É um tema relevante e sempre é bom colocarmos ele em discussão. Agradeço à Fabiana e a Thaise pela oportunidade.

Exatamente ser um assunto atual e importante, optei por publicar as minhas respostas na íntegra sobre o tema, além de compartilhar a reportagem que você pode acessar aqui:  A ansiedade e a relação com a idade.


Thaise - Muita gente acredita que depois dos 40 anos a vida "acabou", e que ela precisa realizar tudo antes disso. Esse comportamento me parece muito presente hoje em dia, acredita nisso? Porque?

Karam - Acredito que um dos motivos que faça com que tenhamos a percepção de que a vida acaba aos 40 é pelo fato de que nos deparamos, nesta fase, com uma época de transição. E uma época de transição sempre é precedida por um período de crise, mais ou menos forte. A mudança é sempre desafiadora e muitas vezes desconfortável. Estamos acostumados com um modelo de ser e de estar no mundo e tememos o que é diferente e novo pelo simples fato de nunca termos experimentado, ou seja, dele nos ser desconhecido. Se a adolescência é a transição da criança para o adulto, o período de 40, 50 e 60 anos é de transição para a vida madura. Não conhecemos a velhice em primeira pessoa, antes de chegar nela, sabemos dela pelo que observamos nos outros e isso pode levar a um estado de ansiedade se encaramos que nossa vida, tal qual ela é na juventude, vai de fato acabar.

Além disso, passarmos dos quarenta é nos aproximarmos da segunda metade da vida e, por consequência e passamos a nos sentir mais próximos da morte, o que ainda é um tabu. Apesar de muitas vezes afastarmos a possibilidade de que morreremos, mais cedo ou mais tarde, em menos de 100 anos nossa vida terá um fim e isso nos gera ansiedade. Essa fase da vida nos convida a olhar mais para dentro, e não tanto para fora. Nos chama para ver que relações a gente construiu, o que é realmente importante em nossa vida e o que é perda de tempo, qual é o sentido pessoal para a existência. Então podemos dizer que o excesso desse olhar para fora pode nos gerar estados de ansiedade.

Thaise -  Quais fatores você acredita que colaboram para isso?

Karam - Primeiramente, não existe uma só razão para que esse movimento esteja ocorrendo com mais frequência. Acredito que seja um conjunto de fatores. Dentre eles podemos pensar que primeira metade da vida é o que podemos chamar de fase heroica, ou seja, você conquista uma vida. A gente sai da casa dos pais para conquistar a própria casa, a própria família, uma profissão, um emprego, etc. A nossa existência gira em torno de estabelecer-se na sociedade como um ser humano. Se você não tiver um mínimo de ansiedade nesta fase, as coisas não acontecem e você não se adapta à vida diferente do que foi proposta pela sua família de origem. A ansiedade nos convida à olhar para fora, a encarar o mundo e a adaptar-se às situações que a vida nos apresenta. Assim, quando chegamos a uma acerta idade essas conquistas já foram realizadas ou, se não foram realizadas, o tempo para realiza-las começa a ser espremido e passamos por um período de questionamento.

Atualmente, muitos dos atributos desta vida jovem, cheia de energia, forte são extremamente valorizados pela sociedade. Talvez pelo medo do desconhecido, o interesse e os desejos estão orientados para o período heroico da vida. Por exemplo, a medicina avança para nos fazer cada vez mais jovens e sem doenças, buscamos uma alimentação saudável para vivermos mais, nos matriculamos em academias, queremos cirurgias plásticas para tirar as rugas, queremos vestir roupas que nos deixem com um corpo magro. Lidar com o fim dessa fase é muito difícil e, definitivamente, nossa sociedade não é preparada para valorizar a vida idosa. Em outras palavras, a vida que é tão desejada e invejada realmente “acaba” nessa fase. A boa notícia é que ela acaba para que outra fase possa vir. Uma fase mais madura, onde será possível aproveitar as conquistas, rever os caminhos, incentivar e ajudar quem é mais novo a também atingi-los. Há um lado luminoso na velhice que não conseguimos enxergar com frequência, os valores passam a ser menos individuais e mais coletivos, um lado que a ansiedade patológica não consegue enxergar.

Thaise - Você acredita que o fato de vivermos em uma era onde as coisas acontecem muito rapidamente contribui para que as pessoas não saibam mais se relacionar com o tempo de cada coisa?

Karam - Acredito que sim, mas acho que o fator que gera a ansiedade não vem de fora, mas trata-se mais de como lidamos com essa nova perspectiva. Quando falamos de ansiedade temos que ter em mente de que este é um funcionamento que nos orienta psíquica e biologicamente para adaptarmos a uma situação adversa, a função da ansiedade é essa, ativar nossa imaginação para driblar uma situação adversa.

O fato das coisas mudarem muito rapidamente é um dado da nossa época, isso pode ser gerador de ansiedade para algumas pessoas, outras lidam melhor com isso e ficam ansiosas quando as coisas andam devagar demais. Há um lado bom da agilidade e da rapidez, hoje temos informações e nos comunicamos tão rapidamente como nossos avós nunca sonharam, um mundo novo se abre. É possível que, se tivermos uma relação material com a vida, como se nosso corpo e nossa existência têm a mesma função de um objeto, aí sim o nosso mundo de hoje pode gerar ansiedade, pois tudo pode ser substituído, tudo o que é velho e antigo não presta, segundo esse pensamento. Se nosso corpo é um objeto que envelhece, ele também corre o risco de ser jogado fora. Agora, se o valor da vida está orientado para os seus aspectos não-materiais, fica mais fácil aceitar essa nova fase onde sentimos que isso é mais importante.
Quando se vive uma vida unilateral, inteiramente voltada para as conquistas e menos para a vida interna, para fazer o que a gente realmente gosta, o que a gente realmente gostaria de fazer na vida, em geral, a ansiedade pode ser um alerta de que precisamos mudar os rumos e olhar mais para dentro.

Existem ainda transtornos de ansiedade desencadeados diretamente por situações muito fortes vividas pela pessoa, como uma violência, um acidente, uma situação em que ela não estava preparada para suportar. Há um tipo de transtorno de ansiedade muito comum atualmente que é aquela onde a pessoa não consegue saber o motivo de sua ansiedade, qualquer coisa pode despertar os sintomas ansiosos. Mesmo nestes casos, os sintomas ligados à ansiedade a protegem dessa adaptação para qual ela ainda não está pronta. Portanto, quando a ansiedade vem, é melhor “perguntar para ela” qual função ela cumpre na nossa vida atualmente, do que ela nos protege e lidar com esse problema da melhor maneira possível.

Thaise - Você conseguiria dar dicas para como melhorar essa relação com a ansiedade?

Karam - Temos que fazer uma distinção aqui. A pessoa que tem um perfil de personalidade mais ansioso que outras e outras que tem problemas relacionadas a transtorno com ansiedade. Nem todos os que sentem a ansiedade mais forte estão doentes. Se a ansiedade está ligada com algum problema que você passou agora, se ela é pontual, mesmo que seja muito forte, ela não é necessariamente um transtorno psíquico. No momento e que você não consegue identificar razões para ela ou os episódios começam a ficar muito frequentes, seria a hora de conversar com um profissional sobre isso.
Quando se está com uma crise de ansiedade, seu pensamento fica difuso, há dificuldade de focar e se concentrar na atividade presente. Não existe uma receita geral, para sair desse estado, dependendo do grau que o transtorno está instalado a pessoa não vai conseguir lidar com o problema sozinha e precisará lançar mão lançar mão de psicoterapia e, ou medicamentos receitados por um psiquiatra.
Dito isso, em termos gerais, a crise ansiosa pode diminuir de intensidade quando prestamos atenção ao presente, ao que realmente está acontecendo naquele momento. Há algumas respirações, do tipo abdominal, que podem ajudar a pessoa a sair de uma crise de ansiedade. Ou ainda práticas como meditação, criações artísticas diferentes de suas atividades cotidianas.
Outro caminho é considerar se a vida orientada para fora não está sendo vivida em demasia, isso é, se estamos nos dedicando muito ao trabalho e pouco para o lazer, se temos um tempo só nosso, para fazer aquilo que gostamos de fazer, para estar com as pessoas que gostamos, se o trabalho em que estou está sendo saudável. Se você acha que está mais ansioso do que precisa pense no que essa ansiedade lhe impede de fazer, será que ela está ligada a algum específico? “converse” com ela, faça esse tipo de pergunta a si mesmo. Quando acontece? Com quem acontece? Depois do que? É quando estou cansado? É quando estou descansando? Tudo isso pode nos ajudar a dar uma pista sobre a função dela na vida da pessoa naquele momento.

Thaise - O que você acha importante acrescentar sobre o assunto?

Karam - A ansiedade é uma reposta psíquica e biológica saudável no ser humano. Ela que nos protege do desconhecido, fazendo com que estejamos preparados para enfrentar a situação que se apresenta. Por diversos motivos ela pode se tornar patológica, um dele pode ser a necessidade de viver essa transição da melhor maneira, por isso, se os sintomas estão de certa forma te impedindo de viver e causando dor, a melhor maneira de lidar com eles é procurar a ajuda de um profissional, psicólogo ou psiquiatra. Procurar ajuda é um sinal de força e que você quer sair da situação, se você está passando por isso, converse com alguém.

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